quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Combinando os combinados: regras e limites

Autora: Camila Zorzan Horta e Silva - CRP 06/104667 - Psicóloga e Especialista pela USP, trabalha com educação escolar, familiar e atende em consultório
E-mail para contato: camilazhorta@gmail.com

    Todos que convivem em uma sociedade aprendem logo cedo a importância e a necessidade das regras.  Elas pontuam o limite entre o certo e o errado, nos mostrando o que podemos ou não fazer em determinados lugares; delimitam valores a serem seguidos e tem um papel fundamental em nos deixar seguros, sabendo como nós devemos nos comportar em diversas situações.  Sem regras, tendemos a ficar ansiosos sem saber como nos comportar e o que é esperado de nós.
    Este é um fator essencial quando pensamos na educação de nossos filhos. As crianças precisam e pedem limites. Isso vai delineando o que eles podem fazer e como devem fazer. Cada família deve pensar em regras para serem colocadas em casa. Essas regras vão mudar de família para família, pois cada família tem valores diferentes e isso vai dar o direcionamento para algumas regras. Por exemplo: algumas famílias acham importante que as crianças peçam permissão para sair da mesa de jantar, outras acham importante que as crianças chamem os avós de senhor e senhora.  Essas pequenas regras, assim como as grandes devem, principalmente, serem pensadas com o foco em quais habilidades e valores acreditamos serem  muito importantes para o futuro de nossos filhos.
    Dicas para facilitar a construção das regras:

As regras devem ser lógicas: seu filho precisa saber por que essa regra é importante para você. Por exemplo: “É preciso atravessar a rua na faixa de pedestre de mãos dadas com um adulto”. Essa regra é importante para evitar acidentes e atravessar a rua em segurança (e isso deve ser explicado para o seu filho).  Regras lógicas aumentam a compreensão das crianças sobre o papel da regra e evita que em momentos de irritação nossos, mudemos de regras. Às vezes quando estamos estressados ou com pressa, queremos resolver logo os problemas e passamos por cima das regras que colocamos para apressar as coisas. Por exemplo: existe o combinado “a criança deve guardar todo seu material escolar na mochila para sair pra escola” Quando estamos atrasados, tendemos a fazer pela criança, porque estamos atrasados e irritados. Isso pode ser negativo, pois os filhos vão percebendo que 1. Podem dar um jeitinho para nunca terem que fazer coisas que não gostam (deixando sempre a mala desarrumada) 2. as regras não dão tanta segurança, pois não funcionam bem 3. As regras dependem  do humor dos adultos.

As regras tem que ser claras e objetivas: seu filho precisa saber o que você espera quando se pede algo a ele. Ex: “arrume seu quarto”.  Essa regra não é clara, pois arrumar o quarto pode ser muitas coisas. O que você quer com essa regra? Que ele guarde os brinquedos? Que arrume a cama? Que varra o chão? Por isso, as instruções devem ser mais claras: “Guarde todos os brinquedos e coloque as roupas sujas no cesto”. Assim, seu filho saberá o que fazer. Para isso, é sempre importante pensar que as regras devem estar de acordo com a idade: não adianta pedir para o seu filho de dois anos arrumar a cama, pois ele não irá conseguir, mas ajudar a  guardar os brinquedos, ele consegue. Você só deve pedir coisas que sabe que o seu filho vai poder realizar, se não isso vai gerar uma frustração tanto no seu filho, quanto em você e a regra não funcionará.

As regras devem ser repetidas e supervisionadas: para a compreensão e fixação da regra, você deve repeti-la sempre que necessário, principalmente quando a regra for nova.  Quando estamos aprendendo uma coisa nova precisamos de muita repetição para compreendermos  e usarmos a regra cotidianamente. Para isso, pode ser de grande ajuda um cartaz na casa com as regras mais importantes. Outra coisa essencial é a supervisão da regra. Quando pedimos para nosso filho arrumar o quarto, ou fazer a lição, precisamos nos certificar que a tarefa foi comprida, pois caso nossos filhos não façam a tarefa, estaremos ensinando-o a mentir, dizendo que concluiu o que foi pedido, sendo que não o fez conforme o combinado. Para não dar lugar a mentira, cheque o que é pedido para seu filho.

Flexibilidade nas regras: se você perceber que uma regra não esta funcionando, ou porque ela nunca consegue ser cumprida, ou porque esta deixando seu filho muito atarefado, as regras podem ser mudadas e isso deve ser explicado a seu filho. Nunca mantenha regras que não funcionam, pois vão dizendo indiretamente que regras não são usadas e não funcionam.  É importante garantir que as regras estão dentro da possibilidade do seu filho cumprir. Não exija demais. Outro fator de flexibilidade é que as regras, por um motivo importante podem ser quebradas, mas como exceções. Por exemplo: “tomar refrigerante no meio da semana não é permitido”.  Porém, se for aniversário do seu filho ou de alguém e for servido refrigerante pode se pensar em flexibilizar essa regra. Desde que  fique claro para o seu filho o motivo da quebra da regra.

Consequências para os combinados: sempre que seu filho executar bem um combinado ou regra é importante elogiar bastante tudo que ele fez de correto. Ele precisa se sentir bem por fazer os combinados. Além disso, você pode planejar atividades gostosas como jogos em família ou um passeio para comemorar atividades mais difíceis que seu filho conseguiu realizar. Tente sempre ser positiva com seus filhos, isso gera um clima mais gostoso e divertido. Caso seu filho não cumpra os combinados, consequências podem ser pensadas. O mais importante nesse momento é propor consequências, que você mãe ou responsável, possa cumprir.  Evite ameaças! As consequências devem fazer parte da regra.  Se seu filho não fizer, saberá o que vai deixar de ganhar.  Por exemplo: combine com ele coisas que ele vai ganhar se conseguir concluir a tarefa de casa. “Se fizer toda lição, poderá ficar 30 minutos no computador ( as premiações devem ser pensadas de acordo com o que a criança gosta de fazer, e muda de criança para criança)” se ele não cumprir, deixará de ganhar o que foi combinado. Assim, fica na mão dele a possibilidade de ganhar ou não uma coisa que ele gosta, depois de uma tarefa difícil.

Os pais também devem seguir os combinados: os combinados podem ser diferentes para os adultos, mas precisamos lembrar que as crianças aprendem mais observando os pais fazerem as coisas, do que seguindo regras faladas. Exemplo: se você diz para o seu filho que é muito importante atravessar a rua na faixa de pedestre,  você terá que sempre atravessar com ele na faixa de pedestre. Porque, se quando estiver com pressa, atravessar fora da faixa, abrirá um questionamento sobre a validade das regras. Isso será um problema, pois se você fala uma coisa e faz outra, as crianças aprenderão que as regras não são tão importantes assim e que sempre podem ser quebradas.  Você é o principal exemplo para seu filho, todas as suas atitudes são bem mais importantes do que o que você diz. Tome cuidado com isso.

    De maneira geral, sempre que ensinamos algo novo para alguém precisamos de paciência e persistência, com muitas repetições e supervisionamentos.  A ideia não é que sua casa vire um quartel general, mas sim, um lugar onde todos sabem quais são suas obrigações e como cumpri-las de maneira tranquila e previsível. Adapte sempre as regras que não estão funcionando, mude as exigências conforme a idade e curta bastante as conquista de seus filhos.


Nenhum comentário:

Postar um comentário