quarta-feira, 18 de março de 2015

A relação entre culpa e consumo

Autores: Suzana Battistella e Delane Botelho
Instituição: FGV EAESP
E-mail para contato: suzanavbattistella@hotmail.com/delane.botelho@gmail.com


Muitas vezes quando um grupo de mães se reúne para conversar, a palavra culpa aparece. Culpa por passar muito tempo fora de casa por causa do trabalho, culpa por perder a paciência, culpa por ir a um fast-food quando acha que deveria estar em casa saboreando uma refeição saudável... Claro, nem todas as mães sentem culpa, mas sem dúvida este é um sentimento que surge com muita frequência, tanto que há um ditado popular que diz “nasce a mãe, e com ela a culpa”. Mas porque isso acontece?

Há dois motivos principais. O primeiro deles é o fato da maternidade ser algo idealizado pelas mulheres, ou seja, muitas imaginam que ser mãe é algo que lhes trará felicidade plena, que um filho irá completar a sua vida. É verdade sim, um filho traz uma alegria muito grande. Mas antes de planejar o seu nascimento nem todas as mulheres lembram que toda esta alegria vem acompanhada de cansaço, esgotamento e uma grande dose de sacrifício. Muitas mulheres idealizam um modelo de mãe perfeita, que conseguirá conciliar trabalho e família, que estará presente em todos os momentos importantes da vida de seus filhos, que saberá como alimentar, educar e proporcionar as melhores chances para o desenvolvimento de seu filho com perfeição. Mas depois que a criança nasce e estes ideais não são cumpridos a mãe passa a sentir culpa. Culpa por não estar de acordo com aquele modelo que ela imaginava, por não conseguir corresponder ao seu ideal de uma boa mãe, ou por não corresponder ao que as outras pessoas próximas de si julgam ser uma boa mãe.

Um outro motivo que leva ao sentimento de culpa é a responsabilidade que, em muitos casos, ainda recai em grande parte sobre a mulher, mesmo havendo pais que estão participando cada vez mais. Para entender um pouco melhor sobre o sentimento de culpa e suas implicações, entrevistamos algumas mães e foram poucas as que afirmaram que há uma divisão totalmente igualitária do trabalho dentro de casa. E quando a responsabilidade não é dividida, a culpa também não é. Nas sociedades em que a responsabilidade de criar os filhos recai exclusivamente sobre a mãe, a culpa também recairá, afinal se a criança for mal-educada, fizer birra, for um problema na escola, a culpa é de quem? De quem tem a responsabilidade de educá-la.

Mas a culpa tem o seu papel importante: é ela quem motiva a mãe a rever suas atitudes e decisões. E isso acontece porque é um sentimento com o qual não gostamos de conviver, portanto precisamos fazer algo para eliminá-lo. Existem vários modos de lidar com a culpa: a mãe pode se imaginar na mesma situação e prometer que não fará a mesma coisa novamente, pode transferir a culpa para outra pessoa ou para as circunstâncias, ou pode fazer algo para deixar a “vítima” do seu sentimento mais feliz: ceder a algum pedido do seu filho ou até mesmo comprar presentes para ele. E foi esta possibilidade de lidar com a culpa que motivou a nossa pesquisa; nós gostaríamos de entender se o consumo poderia ser uma das formas de eliminar o sentimento de culpa.

Para responder a esta pergunta, pedimos a mais de 200 mães que imaginassem uma mulher com um filho pequeno e nos respondessem o que ela faria em algumas situações de consumo. Em um caso o filho estaria muito bem, feliz, acompanhando as atividades da escola e a mãe estaria tranquila. Em outro caso a criança teria dificuldade de relacionamento, não estaria muito bem na escola, e uma psicóloga havia aconselhado a mãe a passar mais tempo junto com o filho. Depois comparamos as respostas: aquele grupo de mães que imaginou alguém que sente culpa em relação ao bem estar do seu filho indicou que a mãe compraria com mais frequência o que filho pedisse, deixaria que ele influenciasse mais as suas compras e compraria mais coisas desnecessárias do que as mães que estavam mais tranquilas em relação ao cuidado de seu filho. Ou seja, as mães que sentem mais culpa seriam mais permissivas em relação ao consumo do que as que não sentem culpa.

Depois fizemos mais uma pesquisa, perguntamos a um outro grupo de mães como elas se sentem em relação ao seu filho (o link da pesquisa foi disponibilizado neste blog, pode ser que você tenha participado) e como são seus hábitos de consumo em situações que envolvem a criança. Separamos dois grupos: aquelas que sentem muita culpa e aquelas que sentem pouca ou nenhuma culpa. Comparamos as respostas sobre os hábitos de consumo e o que descobrimos? Não houve diferença em relação à frequência com que se atende aos pedidos de compra dos filhos ou se permite a sua influência na escolha de produtos. Mas houve uma diferença em relação à frequência de compra de produtos supérfluos, ou seja, produtos que não são realmente necessários. Ou seja, as mães que sentem mais culpa compram produtos supérfluos com mais frequência do que aquelas que não sentem culpa.


E o que esta pesquisa nos mostra? Que há um estereótipo de que as mães que sentem mais culpa são mais permissivas em relação às solicitações de consumo de seus filhos, mas não pudemos comprovar que isso realmente acontece. O que verificamos é que as mães que sentem mais culpa compram mais produtos desnecessários para seus filhos, ou seja, o consumo pode sim ser uma forma de aliviar este sentimento. Não estava dentro do escopo desta pesquisa entender qual a consequência desta atitude, mas ter a consciência de que isso acontece seria o primeiro passo para refletir se este é, ou não, um bom modo de amenizar o sentimento de culpa.

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