quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Entrevista com as psicólogas do Núcleo Corujas

Entrevista com as psicólogas Luciana Romano e Raquel Benazzi, que fazem parte do Núcleo Corujas - Grupos terapêuticos, cursos e atendimentos clínicos.
Website:http://www.nucleocorujas.com.br/


Super Mãe: Como é o trabalho desenvolvido por vocês no Núcleo?

Psicólogas: No Núcleo Corujas realizamos cursos, palestras, grupos terapêuticos e oficinas para gestantes e mães com bebês. Além disso, temos nossa clínica de atendimento psicológico a todos os públicos, criança, adulto, idoso e orientação a gestante, mães/bebês e familiares. 

Super MãeQual o objetivo desta proposta?

PsicólogasInformar, proporcionar acolhimento, desenvolvimento de estratégias e reflexões às mães e familiares, com base na compreensão das questões e não nos julgamentos e preconceitos. Além de favorecer a troca de experiências com base nos vínculos e diálogos entre as pessoas que participam de nossas atividades.

Super MãePor que falar sobre luto com as crianças?

PsicólogasA morte é inevitável, faz parte do processo do ser humano. A criança deve minimamente se familiarizar com questões de perdas e lutos e se preparar para estas situações da vida, pois só assim conseguirá desenvolver competências e ferramentas internas para superar tais adversidades e ser capaz de lidar de forma mais saudável com os sentimentos da perda que enfrentará mais tarde ao longo da vida. Essa é uma forma de preparar o futuro adulto para este fato inevitável - perda, morte e luto. Claro que devemos enfatizar que a explicação da morte e do luto à criança deve ser feita com uma linguagem adequada a sua compreensão e idade, usando conceitos concretos e expressões reais, sem metáforas e sempre oferecer um espaço de segurança e acolhimento para todas suas expressões de dúvidas e sentimentos. 

Super MãeComo vocês entraram em contato com essa realidade?

PsicólogasMinha mãe sempre tratou da morte de forma mais aberta, conversando delicadamente sobre o tema, ouvindo minhas dúvidas e fantasias e não tratando os rituais de despedida como algo aterrorizador. Aprendi que se a família lida melhor com a morte, a criança – consequentemente - aprenderá a lidar com isso também, mesmo ela sendo difícil e dolorosa.

Ao entrar na faculdade de Psicologia, aprendemos a lidar com as dores emocionais dos outros, o que nos permitiu compreender o sofrimento humano. Nossas experiências em hospital, UTIs e clínica nos mostram que a população, principalmente a adulta, tem pavor em conversar e lidar com o tema morte/luto, tendo enorme dificuldade em conseguir falar abertamente e, mais ainda, com as crianças, o que também dificulta a permissão do luto de todos os envolvidos.

Muitas vezes em hospitais e clínicas somos convocadas a mediar essas conversas e ajudar num processo de luto antecipatório, isto é, o luto que já existe antes de haver a perda real, caso comum em doenças graves e longas internações.

Super MãeQual é a formação de cada uma? Vocês são mães?

PsicólogasSomos formadas em Psicologia pelo Mackenzie, com Pós-Graduação em Psicologia Clínica Analítica e em Psicologia Hospitalar. Hoje, nós somos mães apenas em potencial e aspirantes, trabalhamos nessa área e temos a formação para lidar com o sofrimento e dificuldade do ser humano, seja ele qual for, apesar da não experiência mãe-filho pessoal. 

Super MãeHá facilidade nos meios de comunicação para as mães terem acesso às informações sobre como abordar o luto com as crianças?

PsicólogasEsse assunto ainda é visto como tabu e acreditamos que existe pouco espaço destinado a este tipo de abordagem. Porém, observa-se uma procura por profissionais que auxiliam neste processo.

Hoje, com a internet, as informações são disponibilizadas de forma fácil, as pessoas procuram respostas e soluções rápidas. Mas, ao mesmo tempo que esse pode ser um bom caminho é necessário cautela, muita informação sem embasamento teórico, que generaliza situações e categoriza o comportamento como certo ou errado.

Precisamos lembrar que o assunto é peculiar e que, muitas vezes, é preciso entender o aspecto particular e único de cada um enfrentar e sentir estes momentos,

Super MãeComo é o trabalho do grupo terapêutico Núcleo Corujas?

PsicólogasNos reunimos em torno de um tema específico que será discutido pelos participantes com o objetivo de gerar reflexão, criar uma rede de apoio, oferecer um espaço de trocas de experiências e suporte emocional, diálogo, estratégias e vínculos. Assim, em cada encontro abordamos um assunto específico e a partir dele abrimos para conversa, dinâmicas ou atividades com o grupo. Fazemos intervenções e reflexões quando necessário, e deixamos os participantes se expressarem livremente.

Super MãeVocês gostariam de dizer algo mais as nossas leitoras?

PsicólogasQueremos dizer que ter dificuldade em falar de luto com a criança é normal, principalmente dentro da nossa sociedade - que nega constantemente a morte. Não se sinta menos pai ou menos mãe por ter essa dificuldade, olhe para isso com mais acolhimento, compreensão e menos julgamento, procure pensar o que é morte para você, como a compreende e como lida com o luto. Após este difícil exercício, confie que tratar o tema com amor, segurança e mais naturalidade com a criança trará menos sofrimento a ela do que resguardá-la deste assunto, ao inventar mentiras ou simplesmente negar.    

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