quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Entrevista sobre epilepsias e convulsões

Dra. Andrea Julião de Oliveira
Neurologista/Epileptologista
Médica do NATE (Núcleo Avançando no Tratamento das Epilepsias) do Hospital Felício Rocho

Andrea Julião de Oliveira é médica neurofisiologista clínica com atuação em epilepsia. Fez seu treinamento no Hospital São Lucas da PUC-RS, em Porto Alegre, e hoje trabalha no NATE (Núcleo Avançado de Tratamento das Epilepsias), no Hospital Felício Rocho, em Belo Horizonte, MG.

Super Mãe: Desde pequenas ouvimos falar que febres muito altas podem causar convulsões. Isso é verdade?

Dra. Andrea: Sim, de fato existem “convulsões febris”, que são crises epilépticas causadas por febre – não necessariamente febre alta, mas geralmente uma subida mais rápida da temperatura corporal. Felizmente, as convulsões febris não são tão comuns (ocorrem em cerca de 5% das crianças, geralmente entre os 6 meses e os 5 ou 6 anos de idade). As convulsões febris são geralmente benignas, ou seja, sem maiores consequências.


Super Mãe: Qual a diferença deste tipo de convulsão para epilepsia?

Dra. Andrea: As convulsões febris têm uma causa externa, que é a febre (ou, como dissemos, a subida rápida de temperatura), em um cérebro mais excitável, que é o cérebro de crianças na idade pré-escolar. Isto é diferente das epilepsias, que são doenças caracterizadas por uma predisposição anormal a apresentar crises independentemente de causas externas imediatas. Ou seja, o fato de apresentar uma convulsão febril não significa que a criança tem ou terá epilepsia.
 

Super Mãe: É possível prever um ataque epiléptico?

Dra. Andrea: Infelizmente, a maioria das crises epilépticas se inicia súbita e abruptamente, sem permitir que possamos prever. Há exceções, nos casos em que as crises tem um início mais gradual, focal, com sintomas que o paciente pode perceber antes de apresentar alterações da consciência: a estes sintomas damos o nome de “aura”.


Super Mãe: Quais são os sinais de um ataque epiléptico e como devemos agir nestes casos?

Dra. Andrea: Existem crises de diversos tipos, com características diferentes. Nas crianças, são comuns crises de “ausência”, caracterizada apenas por uma breve parada, com ruptura do contato e da consciência, mas sem sinais visíveis. As crises mais assustadoras, no entanto, são ainda as crises convulsivas (chamadas “tônico-clônicas generalizadas”), que se caracterizam por perda da consciência e do controle motor, com queda e movimentos involuntários de contração dos músculos, que se tornam enrijecidos ou se contraem repetidamente. Nessa crise, a pessoa pode morder a própria língua e pode ter cianose (ficar “roxinha”), porque a oxigenação do sangue está diminuída. É importante esclarecer que a cianose não tem nada a ver com “enrolar ou engolir a língua” (isso não existe!), mas sim com o enrijecimento da musculatura respiratória. Portanto, não se deve segurar, em hipótese alguma, a língua do paciente em crise, nem introduzir qualquer objeto em sua boca. Ao contrário, devemos facilitar sua respiração afrouxando as roupas, colocando-o deitado de lado e deixando espaço para que ele respire. A maioria das crises, felizmente, termina espontaneamente em menos de 3 minutos. Por isso, se a crise, com a contração muscular, durar mais de 5 minutos, já é preciso providenciar ajuda médica. Apenas se a crise se prolongar por mais de 10 minutos devem ser tomadas medidas de tratamento de urgência. Atenção apenas para não colocar nessa conta o período que vem depois do término da crise, em que a pessoa fica molinha, muito sonolenta, às vezes um pouco confusa, enquanto se recupera.


Super Mãe: Nos quadros de epilepsia, quais sãos os tratamentos disponíveis?

Dra. Andrea: O tratamento da epilepsia, em princípio,  é feito com medicamentos. Existem diversos fármacos, e a escolha deve ser feita criteriosamente pelo médico, levando em conta o tipo de crise, as características do paciente, sua  idade, se ele usa outros remédios ou tem outros problemas de saúde. Na maioria das vezes, a epilepsia se controla com um único medicamento, desde que tomado regularmente e nas doses adequadas. Infelizmente, porém, existem casos (20 a 30%) em que o controle não é obtido com fármacos. Se isso ocorrer, devemos avaliar as alternativas de tratamento. Nesses casos, a cirurgia da epilepsia pode ser uma boa opção. Se a cirurgia não for possível, há alternativas como a dieta cetogênica e a neuromodulação.


Super Mãe: O que a doutora teria a dizer sobre o tratamento denominado terapia VNS?

Dra. Andrea: A terapia VNS é uma destas alternativas, e faz parte do que chamamos de “neuromodulação”. A neuromodulação funciona pela aplicação de estímulos elétricos leves, repetidos cronicamente, sobre o sistema nervoso, de modo a, lentamente, modificar o modo como o cérebro funciona. No caso das epilepsias, a neuromodulação pretende reduzir a ocorrência das crises e sua gravidade.  A terapia VNS deve ser indicada por um time de médicos especializado em epilepsias de difícil controle. É um processo que funciona com o implante de um gerador de impulsos elétricos, semelhante a um marca-passo, na região do ombro, ligado a um eletrodo colocado sobre o nervo vago, no pescoço. Este gerador é ligado e controlado pelo médico epileptologista, utilizando uma ferramenta sem fio, que modifica gradualmente a intensidade e a frequência dos estímulos aplicados sobre o nervo. Geralmente a terapia VNS é muito bem tolerada e não oferece maiores riscos.

Super Mãe: A doutora gostaria de dizer algo mais?
Dra. Andrea: Sim. É muito importante lembrar que as epilepsias não são raras - acometem cerca de 2% da população - e podem surgir a qualquer momento na vida de uma pessoa, da infância à terceira idade. Felizmente, as epilepsias podem evoluir muito bem, desde que diagnosticadas corretamente e tratadas adequadamente. A maioria das pessoas com epilepsia pode ter suas crises totalmente controladas e viver uma vida plena e feliz. O pior problema, para muitas das pessoas com epilepsia, no entanto, é o preconceito! Ideias erradas e preconceituosas existem até hoje, infelizmente. Para este problema, a solução é a informação. Informação correta, bem fundamentada e de fontes seguras, além de amor e respeito!

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