Diagnóstico de câncer e desejo de ser mãe: por que a preservação da fertilidade precisa entrar na conversa desde o início
- blogsupermae
- há 4 horas
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Receber um diagnóstico de câncer já é, por si só, um dos momentos mais difíceis que alguém pode enfrentar. Para mulheres em idade reprodutiva, esse momento carrega ainda uma segunda perda — silenciosa, mas igualmente dolorosa: a possibilidade de ter filhos no futuro. Quimioterapia e radioterapia salvam vidas, mas podem comprometer de forma definitiva a fertilidade.
O que pouca gente sabe é que, com planejamento e agilidade, essa perda muitas vezes pode ser evitada. E a Justiça brasileira tem caminhado nessa direção. Decisões recentes do Tribunal de Justiça do Distrito Federal determinaram que planos de saúde devem custear integralmente o congelamento de óvulos para pacientes oncológicas, reconhecendo o procedimento como parte do próprio tratamento do câncer. O STJ também tem se posicionado favoravelmente, ampliando o acesso a uma tecnologia que, até pouco tempo, era vista como privilégio de poucos.
Cada câncer afeta a fertilidade de um jeito diferente
Para o Prof. Dr. José Carlos Sadalla, oncoginecolologista e cofundador da Clínica Andrade & Sadalla, o primeiro passo é entender que não existe um impacto único — e que o tempo é determinante.
No câncer de mama, um dos mais frequentes entre mulheres em idade reprodutiva, a quimioterapia pode reduzir drasticamente a reserva ovariana. Os tratamentos hormonais, que costumam durar entre 5 e 10 anos, adiam ainda mais o momento ideal para engravidar. No câncer de colo do útero, dependendo do estádio, cirurgias podem comprometer diretamente o útero — tornando a decisão sobre preservação ainda mais urgente.
No câncer de ovário, a situação é particularmente delicada: o próprio órgão responsável pela fertilidade pode precisar ser removido, parcial ou totalmente, dependendo da extensão da doença. Já nos linfomas e leucemias, comuns também em pacientes jovens, a quimioterapia de alta intensidade e o transplante de medula óssea têm efeito direto sobre a função ovariana.
Em todos esses casos, a preservação da fertilidade precisa ser discutida antes do início do tratamento — idealmente já na primeira consulta após o diagnóstico.
Quais são as opções disponíveis?
As principais técnicas são o congelamento de óvulos, de embriões e de fragmentos de tecido ovariano. Cada uma tem suas indicações. O congelamento de embriões é a técnica mais consolidada e apresenta os melhores resultados. O congelamento de óvulos tem demonstrado taxas de gravidez ao redor de 30% — uma alternativa especialmente indicada para mulheres sem parceiro fixo.
A escolha depende do tipo de câncer, da urgência em iniciar o tratamento, da idade e da situação da paciente. O papel do médico é apresentar essas opções com clareza — sem gerar falsas expectativas, mas também sem negar essa possibilidade a quem deseja preservá-la.
O maior obstáculo ainda é a falta de informação
Muitas pacientes simplesmente não sabem que essa opção existe. E muitos oncologistas, focados na urgência do combate ao câncer, podem não abordar o tema no momento certo. O Dr. Sadalla é direto: a preservação da fertilidade não compete com o tratamento oncológico — ela faz parte dele. Em geral, é possível realizar a estimulação ovariana e o congelamento de óvulos em um intervalo de 10 a 14 dias, sem atrasar de forma significativa o início da quimioterapia.
Ninguém deveria descobrir, anos depois de vencer o câncer, que perdeu também a chance de ser mãe — sem nunca ter sido informado de que essa possibilidade existia.


