Nem sempre é birra: o que uma crise intensa pode estar tentando dizer

A terapeuta ocupacional Andréa Fernandes lança livro sobre sono, alimentação,
telas e emoções na infância, com atenção especial às crianças neurodivergentes.
O caminho da escola mudou por causa de uma obra, e a manhã inteira desandou. O prato que volta intacto pela terceira noite seguida. O choro que começa por causa de um barulho que ninguém mais percebeu. Quem convive com uma criança pequena já ouviu — ou já pensou — a palavra “birra”.
Às vezes é mesmo. Mas nem sempre. Para a terapeuta ocupacional Andréa Fernandes, uma crise diante de uma mudança de rotina, a recusa de certos alimentos, a dificuldade para dormir ou uma reação intensa a sons e ambientes podem ser formas de comunicação. Ela trabalha há quase uma década com desenvolvimento infantil e acompanha crianças com transtornos do neurodesenvolvimento, entre eles o espectro autista.
Esse olhar virou livro: Pequenos e Decisivos Passos na Infância — um olhar sensível e prático de quem cuida e conduz, lançado pela Minotauro, selo da Alta Books. A ideia central é trocar a pergunta. Em vez de “como faço para ela parar?”, Andréa sugere olhar o que existe por trás da reação. Uma crise pode vir de sobrecarga sensorial, quando som, luz ou movimento chegam em volume maior do que a criança consegue processar. Pode vir da necessidade de previsibilidade, de saber o que vem depois. Ou da dificuldade de autorregulação, que é a capacidade de se acalmar depois de uma emoção forte e que a criança ainda está aprendendo a exercitar.
Por isso o livro não traz fórmulas. Traz ferramentas para que pais, escolas e responsáveis reconheçam o jeito de cada criança e montem estratégias possíveis, sem tratar diferença como defeito a ser consertado. Os temas passam por sono, alimentação, autonomia, brincar, regulação emocional e comunicação não violenta, com exemplos práticos do cotidiano de crianças neurodivergentes.
Mãe de três filhas, Andréa defende uma parentalidade baseada em presença, vínculo e respeito ao tempo da criança. “Assim como uma árvore precisa de raízes profundas para crescer firme, a criança precisa de vínculos seguros para se desenvolver. E esses vínculos são construídos por pequenos atos de presença: um colo disponível, uma escuta atenta, um ‘estou aqui’ nas horas difíceis”, afirma.
As telas também entram na conversa. Andréa lembra que o excesso reduz momentos de interação na rotina de qualquer criança, não só das neurodivergentes, e que isso passa pela relação dos próprios adultos com a tecnologia. A proposta dela é criar, em casa e na escola, momentos de convivência desconectada: tempo para explorar, conversar, brincar e ter contato físico.
Se você já parou no meio do corredor do mercado sem saber se a criança estava desafiando você ou pedindo ajuda, esse impasse é mais comum do que parece. Não ter a resposta na hora não diz nada sobre o tipo de mãe que você é. E se quiser conhecer o livro, os detalhes estão logo abaixo.
Para saber mais
Título: Pequenos e decisivos passos na infância — um olhar sensível e prático de quem cuida e conduz
Autora: Andréa Fernandes
Editora: Minotauro, selo Alta Books
Páginas: 192
Preço: R$ 45,50 (e-book) e R$ 65,50 (físico)
Onde encontrar: Amazon, Alta Books e principais livrarias do país
Instagram da autora: @andrea.desenvolvimentoinfantil

